Há de ser tudo da lei

Eleição para ditadores - Crônica





O povo de democracialópolis estava desacreditado da democracia. Diziam que pelo voto não se mudaria nada. Estavam cansados de ver notícias sobre corrupção e altos gastos públicos. Queriam o fechamento do congresso e a intervenção de uma autoridade com poderes para conduzir o país da forma como bem entendesse.

Foram para as ruas numa manifestação democrática pedindo o fim da democracia. Levantaram cartazes e faixas. Queriam a mudança. Alguém para colocar ordem no país. E gritavam "Fora políticos" "Fechem o Congresso"."Chega de corrupção". "Queremos um ditador para nos governar". Nesse momento uma pessoa no meio da multidão comentou:

- Mas quem será o ditador?
- Nós já temos um nome - alguém rapidamente respondeu.
- Que ótimo! Ele trabalha com o quê?
- É político, mas é um patriota. Fez carreira militar.
- Hummm, mas eu gostaria de um ditador que fosse um empresário.

Nesse momento, várias pessoas que estavam na manifestação participaram da conversa e comentaram:

- Eu gostaria de um ditador que implantasse o liberalismo econômico.
- Eu gostaria de um ditador que fosse formado em economia com mestrado em gestão pública - disse um outro manifestante.
- Eu gostaria de um ditador que distribuísse a riqueza e colocasse os proletariados no poder - disse um outro.
- Eu gostaria de um ditador que obrigasse todas as pessoas a seguirem a minha religião - disse um quarto manifestante.


Diante desse impasse, eles decidiram que deveriam fazer uma eleição para escolher o ditador que agradasse a maioria da população de democracialópolis.

Então os grupos com diferentes interesses se reuniram para escolher seu candidato. Doze candidatos concorreram. Um se dizia anarcocapitalista, o outro se dizia liberal, o terceiro era conservador, o quarto era progressista, o quinto era religioso, o sexto se dizia socialista, o sétimo se dizia comunista, o oitavo se dizia anarquista, o nono se dizia sem religião, o décimo era representante da classe dos trabalhadores, o décimo primeiro era militar e o décimo segundo representava os anarcocomunistas.

Para ganharem a preferência da população, os candidatos fizeram campanha, investiram em marketing, propaganda política na TV, recrutaram comentaristas na internet, entre várias outras coisas. Houve grandes discussões por todo o país.

Após algumas semanas, chegou finalmente o dia das eleições. O resultado foi empate técnico. Como solução a esse impasse, eles resolveram dividir o território de democracialópolis em 12 partes iguais lideradas pelos diferentes ditadores. E assim cada um pode migrar para o local onde seriam conduzidos pelo seu ditador favorito. Sem mídia, sem crítica, sem ponto de vista diferente.
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O bolsonarismo: Adolfo Oleare entrevista Vitor Cei

Vitor Cei é coorganizador dos livros Brasil em crise (2015), O que resta das jornadas de junho (2017) e Direitos humanos às bordas do abismo (2018). Idealizou, com David G. Borges, o Seminário de Pesquisa Social: Brasil em crise. Organizou e mediou o primeiro debate público do João Cezar de Castro Rocha sobre a guerra cultural bolsonarista




Entrevista concedida a Adolfo Oleare em 11 de junho de 2020




Oleare - Professor Vitor Cei, de acordo com seus estudos e com o debate dos livros que organizou sobre o cenário político brasileiro a partir de 2013, como o senhor diagnostica o surgimento do bolsonarismo?


Cei - Em 2018, 57,8 milhões de eleitores, influenciados por notícias falsas e motivados por afetos como ódio e ressentimento, elegeram um Presidente da República que personifica o machismo, o racismo, o autoritarismo, a tortura... Em junho de 2020, cerca de 32% da população considera o desgoverno da barbárie bom ou ótimo. As mesmas pesquisas mostram que cerca de 46% dos brasileiros confiam no Bolsonaro. Como esse fenômeno começou? Poderíamos fazer uma extensa retrospectiva e dizer que o bolsonarismo surgiu em 1988, quando Jair Messias Bolsonaro foi eleito vereador no Rio de Janeiro. No entanto, como você nota, considero 2013 o ano da virada política deste século.


Em junho de 2013, milhares de pessoas foram às ruas “contra-tudo-isso-que-está-aí”, bordão que virou uma popular hashtag entre os ativistas de sofá. Suspostamente contra a direita e a esquerda, aquela multidão não tinha uma concepção ética subjacente, tampouco referências valorativas. Em um raro momento da história do país, as manifestações de rua foram lotadas por essas pessoas que repudiavam os movimentos políticos e populares consolidados e protagonizados pela esquerda. Assim, as ruas, as redes de ações coletivas e o ativismo digital passaram a ser liderados por movimentos reacionários, imperialistas e neofascistas, contraditoriamente “liberais na economia e conservadores nos costumes”.


Em 2018, uma façanha da equipe de comunicação de Bolsonaro conseguiu convencer os coxinhas niilistas de 2013 que um deputado federal com 30 anos de carreira era o candidato contra isso que está aí, contra tudo e contra todos. Ele personificou um avatar ou meme antissistema que fez muito sucesso nas redes sociais. Outros eleitores passaram a adotar o princípio do mal menor. Para evitar o mal considerado maior, isto é, a reeleição do PT, aceitaram discursos antidemocráticos e atitudes neofascistas. Assim, um candidato favorável à tortura foi eleito.

Oleare - Como o senhor caracteriza a cultura bolsonarista (suas estratégias, suas táticas, seus agentes, seus valores, seus objetivos)?


Cei - As estratégias e táticas dos bolsonaristas assemelham-se àquelas dos agitadores fascistas norte-americanos descritas por Theodor Adorno. Eles usam técnicas manipuladoras e se aproveitam do descontentamento, dos medos e dos ressentimentos de parcelas da população, criando inimigos que corporificam a “força do mal” que deve ser erradicada pelo movimento. No caso dos antissemitas, o alvo eram os judeus. No caso bolsonarista, o alvo é o PT ou o comunismo. Em ambos os casos, os agitadores da turba são financiados por um público cativo, que inclui Igrejas, grandes corporações, pequenas empresas, jornais, rádios e canais de televisão.


Os agitadores incitam a multidão a acreditar que é organizada como um Exército ou uma Igreja. Daí a tendência para o uso de símbolos comuns, como gritos de guerra ou hashtags e uniformes como a camisa da seleção brasileira de futebol ou camisetas com o rosto do Bolsonaro.


As duas estratégias centrais, que conjugam as outras, são a estratégia nostálgica e a estratégia moralista. Seja agindo de modo complementar ou autonomamente, essas estratégias têm em comum a intenção de mudar o Brasil – livrando-o da corrupção – não somente a partir de princípios vinculadores arcaicos, como Deus, Pátria e Família, mas também a partir da tentativa de reinstaurarão de princípios mais recentes, mas igualmente falidos: militarismo e neoliberalismo. Ambas têm como objetivo salvar o povo brasileiro dos diversos males supostamente causados pelo comunismo – a corrupção, o marxismo cultural, o feminismo, a “ditadura gay”, o bolivarianismo e o comunismo – através da restauração dos valores morais e religiosos sustentadores da sociedade brasileira em tempos pregressos, além das instituições às quais estes mesmos valores estiveram vinculados.

Oleare - Que prognóstico o senhor faz acerca dos desdobramentos do bolsonarismo?


Cei - 
Enquanto o guru Olavo de Carvalho atua na internet, usando a retórica do ódio para fomentar a guerra cultural bolsonarista (cf. João Cezar de Castro Rocha, vídeo e texto), a Frente Parlamentar Evangélica atua no Congresso Nacional, desempenhando uma função policial, pois o seu principal objetivo é garantir o acompanhamento e a avaliação de todos os projetos de lei em tramitação na Câmara Federal a fim de evitar a aprovação daqueles contrários à moralidade cristã mais conservadora. Assim, se opõe a temas como Direitos Humanos, Multiculturalismo, educação sexual, igualdade racial e de gênero, direito ao aborto, eutanásia, descriminalização do uso de drogas, casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e criminalização da homofobia.

E os militares ocupam cada vez mais cargos no governo. As Forças Armadas servem ao bolsonarismo, como tropas fieis, ou servem-se do bolsonarismo, manipulando-o para alcançar objetivos próprios? Eis a questão.

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Um Brasileiro vivendo na Inglaterra! Por quê me mudei do Brasil:





Motivos pelo quais me mudei para UK

Desde que tinha aproximadamente uns 15 anos eu já pensava em ir morar em outro país. Aos 18 eu tinha meu passaporte italiano em mãos. Só que eu estava em busca do momento “certo” para me mudar, que só foi ocorrer em 2018. Tratarei dos motivos abaixo:

BREXIT

O BREXIT é composto por duas palavras sobrepostas: “Britain” e “Exit”. Britain é o nome dado ao conjunto dos países: Inglaterra, País de Gales e Escócia. Exit, traduzido, significa saída. Logo BREXIT é a saída desse conjunto de países da União Européia.

“A União Europeia (UE) é uma união económica e política de 27 Estados-membros independentes situados principalmente na Europa. (...) A UE instituiu um mercado comum através de um sistema harmonizado de leis aplicáveis a todos os Estados-membros. No Espaço Schengen (que inclui 22 estados-membros e 4 estados não membros da UE) foram abolidos os controles de passaporte.”. (Wikipédia, 10/06/2020). Isto é, há livre circulação de pessoas e produtos entre esses países, que são submetidos às várias leis comuns, definidas pelo Conselho da União Europeia.

O BREXIT foi um dos motivos pelo qual eu decidi me mudar para Inglaterra. Porque, dentre os países da União Européia, Inglaterra é praticamente o único a ter Inglês como língua oficial. Eu já tinha um certo nível de inglês, minha esposa também. Logo foi uma barreira a menos. Contudo, se eu já soubesse falar Norueguês, talvez teria ido para Noruega. Então, com o BREXIT, foi como um empurrão para ir, pois se esperasse mais, talvez não conseguiria mais me mudar para lá. 

Para entender melhor, faz de conta que a Inglaterra estivesse sempre com a porta aberta. Com o BREXIT eles fechariam a porta, e para entrar lá terão que bater à porta e pedir licença pra entrar. Com a saída da Inglaterra da União Européia eu não teria garantia que eu conseguiria entrar lá com a mesma facilidade de antes. Então fui antes.

Segurança

Uma questão me sempre me incomodou bastante é a falta de segurança. Pra quem é brasileiro é fácil de entender. Em UK, a grande maioria das casas não tem muro. As janelas não tem grade. Muitas vezes as portas ficam destrancadas. De maneira geral as pessoas tem todos os motivos para viverem suas vidas tranquilas e seguras, sem se preocupar em ter os seus bens ou vidas colocados em risco. E não é porque tem polícia em todos os lugares; pelo contrário: dificilmente você vê um carro de polícia ou policiais andando nas ruas. Acredito que trata-se de uma questão de política social, de inclusão àqueles mais necessitados.
Exemplo de uma casa inglesa: 
Semi-detached
Educação

No Brasil as escolas públicas são motivos de piada. E as escolas particulares não tem qualidade tão boa assim e mesmo assim considero que cobram bastante sem oferecer a qualidade esperada. Não me sinto bem pagando impostos e ter em retorno tão pouco e me sentir obrigado a ter que pagar uma educação privada sem a qualidade que eu espero.

Em UK, a grande maioria das escolas (primário e secundário/ensino médio) são gratuítas. Quanto à qualidade, considero muito boa. Os professores são muito bacanas, as escolas possuem uma estrutura muito legal, com espaços para as crianças desenvolverem suas habilitades. Aulas extras como arco e flecha, ballet, robótica, etc, são oferecidas aos alunos gratuitamente. As crianças gostam muito de ir à escola daqui.

Sistema de saúde

O SUS do Brasil é bastante criticado. Eu sempre tive plano de saúde à disposição. Primeiro porque minha mãe trabalhada num órgão ligado ao Ministério da Saúde. Segundo porque depois, nas empresas que trabalhei, havia plano de saúde particular disponível. Contudo, de vez em quando, eu utilizada os Postos de Saúde e os Pronto Atendimentos. Na maioria das vezes era bem atendido. As vezes demorava menos pra ser atendido na rede pública do que na particular. Contudo ouvi falar e já li coisas absurdas ligadas à qualidade de atendimento do SUS, de maneira negativa. Um dos motivos é o sucateamento da máquina pública em favor das privatizações, como se fosse a solução para os problemas.

Em UK, há o National Health System (NHS), que traduzido seria Sistema de Saúde Nacional. Só escuto pessoas falando bem. Das vezes que precisei usar (foram 1 ou 2), fui muito bem atendido. Minha esposa e filhos que usam mais e estou bem satisfeito com a opinião deles sobre o NHS. É público e gratuito para todos (que eu saiba). No entanto algumas pessoas possuem plano de saúde. Contudo o privado aqui não é como no Brasil. Funciona assim: tudo o que você precisa você tem que primeiro ir ao NHS, com seu GP (Clínico Geral). E vamos dizer que você tenha um problema e precise de tratamento ou cirurgia. Então o Clínico te referirá ao especialista. É aí que você então poderá consultar o especialista que você queira (desde que esteja na lista do seu plano de saúde); caso contrário você será atendido pelo especialista de onde você agendar o atendimento (NHS), que poderá ser qualquer um. A única diferença que eu sei é essa. Isso não significa que você será atendimento mais rápido. Isto é, de acordo com o pouco que sei. Na empresa onde trabalhava eu tinha direito a me atender com determinados profissionais e pedir o reembolso, dentro de uma tabela de valores. Nunca precisei usar.

Viver em um lugar com menos diferenças sociais

O Brasil é um dos países com maiores diferenças sociais no mundo. E isso cria diversos problemas sociais. O índice GINI é um instrumento criado para medir as desigualdades. No site abaixo você pode acessar e checar. Esse índice começa a partir de 25 e não sei exatamente qual é o máximo (acho que 70). Quanto menor, quanto mais próximo de 25, menos desigual seria o país.
No site, Brasil ocupa a 8 colocação do país mais desigual do mundo, perdendo apenas para países como Africa do Sul, Namíbia, Suriname, Zambia, Moçambique, entre outros. UK se encontra em 116 dessa lista.

Há um outro site interessante também que compara várias informações sobre países, site abaixo:
Tabela comparativa entre Brasil, Inglaterra, Dinamarca e Ucrânia
País
Brasil
Inglaterra
Dinamarca
Ucrânia
Lugar no Índice GINI (quanto Menor, mais desigual)
8
116
144
159
Ranking Numbeo – (quando menor, melhor)
62
20
1
65

Em UK a diferença entre os ganhos de um peão de obra e de um engenheiro, as vezes não chega a duas vezes. Tal sistema não cria grandes diferenças sociais o que acredito criar uma sociedade melhor de se viver. Além disso conta com Imposto de renda de até 45%.

Possibilidade de conhecer diversos países e culturas diferentes

Pra quem gosta e pode viajar e conhecer diversas culturas e lugares, pra quem mora na Europa, o acesso é fácil e barato. A pluralidade de culturas cria um ambiente para experiências gratificantes.
Já no Brasil, dependendo de onde você mora, não é tão barato e nem tão tranquilo visitar outros lugares ou países. Um voo de Ida e volta, de Vitória a Salvador, custa quase um salário mínimo brasileiro. Pra voar pela Europa, na mesma distância, custa o relativo a 3 ou 4 horas de trabalho (se for salário mínimo inglês). E há muitos preços promocionais, chegando a custar metade disso.

Experiência de vida

Um dos motivos que me fez levar em consideração me mudar foi: experiência de vida
Viver em um outro país, com outra história, outro idioma, outra cultura nos faz refletir o que somos, o que fazemos, o que queremos, etc. É uma jornada que nos leva a diversos tipos de crescimento. Além disso terei oportunidade de me tornar bilingue; meus filhos certamente o serão.

Mosquitos, formigas, baratas

Em UK os insetos não são problema. Se uma comida fica no chão, nenhuma formiga irá levar o pedaço embora. Quase não tem mosquito. Em 2 anos morando aqui, fui picado 1 vez, quando andava em uma área de reserva florestal. Nunca vi uma barata. E devo confessar que fiquei bem feliz de não ter que compartilhar minhas experiências com esses insetos. Não ter mosquitos é minha coisa favorita.
Mosquito Warning Prohibited Sign Images, Stock Photos & Vectors ...
Cerveja
Se voce gosta de cerveja, você está num dos melhores lugares do mundo pra morar. Muita variedade e preço bom.

Regards,



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Você conhece o PAI -1?


O PAI -1 (Inibidor do ativador de plasminogênio tipo 1) é uma serpina protease que contribui ao controle da coagulação sanguínea. Essa substância é secretada em diferentes tecidos como: endotélio vascular, fígado e em grande quantidade pelo tecido adiposo, especialmente o tecido adiposo visceral. Uma elevada atividade e concentração de PAI – 1 reduz a atividade fibrinolítica, o que associa-se ao aumento no risco de doenças cardiovasculares (1,4).

Considerada também uma citocina pró-inflamatória, inclusive com associação ao TNF-alfa e IL-6, o PAI-1 possui associação com variáveis clínicas e funcionais, como por exemplo, mostrando correlação inversa com o VO2máx (capacidade máxima que o organismo tem em captar o oxigênio do ar, transportar e utilizar nos músculos), e correlação positiva com a resistência à insulina (pré-diabetes), níveis de colesterol e triglicerídeos. Mais importante, um equilíbrio entre o t-PA (Ativador de plasminogênio tecidual) e o PAI-1 são necessários para o processo de coagulação sanguínea a fim de adequados níveis de coagulação (1,3). Um desequilíbrio entre estes ou outros fatores hemostáticos facilita o desenvolvimento de aterosclerose e formação de trombos. Alguns medicamentos como estatinas (controle do colesterol) e a metformina (controle da glicemia) parecem contribuir para o ajuste das concentrações de PAI-1 (4).

A gestação é outro estado de interesse para a complexa interação metabólica e enzimática presente no processo de coagulação. Nesse cenário, o PAI-1 está associado a abortos de repetição. Isso ocorre em especial quando relacionados a indivíduos com polimorfismo do alelo 4G/4G, o qual parece responder em até 47% de aumento do PAI-1 quando comparado a outros alelos (4G/5G e 5G/5G)2,4. Resumidamente, ao reduzir a fibrinólise, a ação do PAI-1 pode causar trombose e induzir à insuficiência placentária, impedindo o desenvolvimento fetal (4).

PAI-1 e Exercício Físico

Estão bem estabelecidos os diferentes benefícios do exercício físico regular em diferentes parâmetros de saúde, principalmente na redução da atividade de citocinas pró-inflamatórias bem como um aumento nas citocinas anti-inflamatórias. Cabe salientar que o PAI-1 é principalmente produzido pelo endotélio, e o exercício físico promove benefícios importantes e consistentes sobre a função endotelial. Adicionalmente, estudos que avaliaram os efeitos do exercício regular em processos hemostáticos demonstram um efeito regulador positivo3.

Um grupo de pesquisadores finlandeses produziu um ensaio clínico randomizado longitudinal com 3 anos de seguimento. O objetivo do estudo foi avaliar os efeitos do exercício físico regular nos alelos 4G/5G promotores do gene do PAI-1. Participaram do estudo 212 homens com idades entre 50 e 60 anos que foram avaliados no início, 12 meses e 30 meses após. Foram avaliados triglicerídeos, insulina e PAI-1, além de serem avaliados para identificação dos alelos (4G/4G, 5G/5G e 4G/5G). Foram 140 homens que participaram das análises até o final do estudo. Após realizarem o teste cardiopulmonar, foram identificados os limiares ventilatórios 1 e 2 e os grupos foram divididos aleatoriamente em dois grupos (intervenção e grupo controle).

O grupo intervenção realizou exercício aeróbio contínuo na intensidade do limiar ventilatório 1 (40 a 60% do VO2max) 5x/semana por 1h.
Como esperado, o grupo intervenção aumentou em 8,8 e 5,9% o limiar 1 e 2 respectivamente.
Apenas o grupo com o alelo 4G/4G reduziu em 36% o PAI-1. Os níveis de triglicerídeos foram reduzidos em ~10 mg/dL em todos os alelos.
Os pesquisadores concluíram que o exercício regular realizado na intensidade do limiar 1 mostrou-se benéfico na redução do PAI-1 apenas no grupo com alelo 4G/4G (36% de redução) (1).

Algumas lacunas nos estudos de PAI-1 e exercício físico ainda precisam ser abordadas. Neste sentido, vale destacar que as amostras são compostas predominantemente por homens, e que diferentes, ao meu conhecimento, não há evidências volumosas sobre diferentes condições de exercício físico, como treino de força ou treinamento intervalado de alta intensidade.

Há outros estudos interessantes que abordam exercício físico e PAI-1 em populações clínicas como doença coronária (2) e síndrome metabólica (5). Em postagens futuras, pretendo apresentar essas informações.

Mensagem para levar para casa
Faça exercício físico regularmente e desfrute dos vastos benefícios. Está com dúvida de como realizar? Procure um profissional de Educação Física, que é o profissional que prescreve exercícios físicos.



Prof. Victor Hugo Gasparini Neto


Referências
1-Thromb Haemost 1999; 82: 1117–20
2- Med. Sci. Sports Exerc., Vol. 33, No. 2, 2001, pp. 214–219
3- Rev. bras. hematol. hemoter. 2005;27(3):213-220
4- Metabolism, Vol. 49, No. 7 (July), 2000: pp. 845-852
5- Journal of American Science 2010;6(12):1374-1380
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O FASCISMO BOLSONARISTA E OS DESAFIOS DA RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA

Por Vitor Cei

O crescimento do fascismo no Brasil atual não é equivalente ao fascismo de Estado consolidado, tal como na Itália de Mussolini, apesar das semelhanças. Não obstante, a mentalidade fascista está presente, de forma cada vez mais explícita, tanto nos discursos e práticas de políticos e celebridades, quanto nos cidadãos comuns. Por isso, o fascismo de Estado torna-se uma ameaça concreta.

O que é fascismo? Grosso modo, fascista seria todo regime político autoritário, antidemocrático, nacionalista (“Brasil acima de tudo”), baseado na força, na censura e na supressão violenta da oposição (“vamos fuzilar a petralhada”). As características principais são as seguintes: culto ao líder (o mito); uniformização do vestuário (camisa da CBF ou do mito); existência de um inimigo ao qual atribuem todos os males do país (o PT); defesa da violência e do militarismo (“o erro da Ditadura foi torturar e não matar”); anti-intelectualismo (“Há uma certa tara por parte da garotada em ter um diploma”); pauta política única (segurança pública), ignorando as múltiplas necessidades da população; visão distorcida da tradição e defesa de um conceito único para ideias abrangentes como pátria e família; desprezo pelos Direitos Humanos; simplificação da linguagem (reduzida a frases feitas, gritos de guerra ou hashtags).
Nos livros Brasil em crise (Praia Editora, 2015) e O que resta das jornadas de junho (Editora Fi, 2017), nós mostramos o crescimento do fascismo no Brasil desde as jornadas de junho de 2013. Aquele movimento, apesar de difuso, se consolidou em algumas agendas com pautas que apontam para a crise do espaço público e o acirramento das lutas de classes, onde se produzem e se enfrentam posições heterogêneas e antagônicas.

Você deve se lembrar da hashtag “#contra-tudo-isso-que-está-aí”, muito popular em 2013. Ela foi utilizada pelos niilistas: aqueles que não acreditavam em nenhuma proposta política, criticavam a tudo e a todos e adotavam o discurso de que ninguém poderia dar solução à sociedade brasileira atual. Essas pessoas estavam insatisfeitas com tudo, negavam tudo, queriam mudar tudo, mas sem saber bem como; negavam a esquerda, negavam a direita, negavam o governo, queriam mudança, mas não sabiam para onde. Os niilistas creem que todos os políticos são iguais – igualmente corruptos – e por isso não haveria saída para a crise.
Entre 2013 e 2016, víamos insatisfações de todo tipo nas ruas e redes sociais. Como se uma bolha tivesse estourado, os brasileiros tivessem finalmente olhado para a barbárie em volta e, aterrorizados, concluído que não estavam satisfeitos com o estado de coisas que aí está. Diante de tanta insatisfação, os niilistas apontavam o dedo para todos os políticos e todos os partidos. “Direita? Esquerda? Eu quero é ir pra frente!”, gritavam os coxinhas niilistas, especialmente nas manifestações de 2013.
Exemplar é o discurso do coletivo Anonymous Brasil, formado por pessoas que, segundo as palavras deles mesmos, no post disponível hoje como publicação fixada: “Não estamos aqui para defender posições consideradas de esquerda, direita, militarista, comunista ou socialista. Nós estamos aqui para promover a conscientização, e, a partir dela, a criação conjunta de um novo modelo organizacional mais justo com todos”. O detalhe é que eles não definem o que seria o modelo justo. Também merece menção a Página do Partido Militar Brasileiro no Facebook. Em 2014 podíamos ler comentários como o seguinte: “Manterei a minha cara de palhaço no perfil do Facebook até que o Brasil volte a ter o mínimo de decência que este vigente Regime Comunista nos subtraiu”. O detalhe é que nunca existiu Regime Comunista no Brasil. Hoje eles fazem campanha para um candidato que é militar.
Parafraseando Nietzsche, eu defino o niilismo político como o cansaço do povo brasileiro com a situação política do país. A visão da política agora cansa – o que é hoje o niilismo, se não isto? Nesse sentido, o discurso niilista pode ser considerado uma indignação sem direção, um grande desabafo inoperante, que gera a indiferenciação axiológica do “tudo é igual e nada faz sentido”. Nesse sentido, o niilismo é oposto à utopia. A utopia nega valores instituídos a fim de defender outras perspectivas. O niilismo apenas nega e não defende nada. De acordo com Luís Eustáquio Soares, no artigo Cinismo, niilismo e utopia, não é circunstancial que os niilistas desacreditem, diminuam e neguem precisamente a perspectiva utópica de povos e movimentos sociais, acusando-a de inútil quimera idealista de ignorantes.
As eleições de 2014 foram marcadas por essa visão niilista. Os coxinhas niilistas, que manifestavam a indiferença do niilismo, crendo que tudo é igual e nada faz sentido, tornaram-se eleitores cansados da política e dos políticos. Sem uma concepção ética subjacente, as mesmas pessoas que durante os protestos de 2013 ofereciam apenas frases de efeito e gritos de guerra esvaziados de sentido, se juntaram a diversos brasileiros que passaram a adotar o princípio do mal menor. Muitos eleitores insatisfeitos escolheram seu candidato a partir desse princípio: dos males o menor. E a história se repete agora nas eleições de 2018.
Quem soube se aproveitar da situação e conseguiu preencher esse vazio foi a extrema direita. Surgiram uma série de “incitadores da turba”, categoria usada pelo filósofo Theodor Adorno no ensaio Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista para expressar a atmosfera de agressividade emocional promovida com o intuito de provocar na multidão a ação violenta sem qualquer objetivo político sensato. Assim como os fascistas norte-americanos descritos pelo filósofo de Frankfurt, os agitadores brasileiros preocupam-se pouco com questões políticas concretas e tangíveis. A maioria esmagadora de suas declarações são fake news moralistas, como o kit gay que nunca existiu.
Para dar nomes aos bois: os agitadores da turba podem ser jornalistas como Rachel Sheherazade e Reinaldo Azevedo, que parecem ter se arrependido do papel; oportunistas como Kim Kataguiri, fundador do MBL e eleito Deputado Federal de São Paulo; artistas em fim de carreira como Lobão, Roger Moreira e Alexandre Frota, este último eleito Deputado Federal de São Paulo, em defesa da família tradicional; o deputado que ameaçou fechar o STF; e o presidenciável que defende tortura e ameaça assassinar os opositores. Além das celebridades, existem os pequenos disseminadores provincianos de ódio – os cidadãos que compartilham notícias falsas, reproduzem o discurso de ódio e ainda se fantasiam de caixa 2.
Uma outra vertente de agitadores, eu diria que a mais perigosa, é a do “cristofascismo”, expressão cunhada pela teóloga alemã Dorothee Sölle em 1970 para descrever segmentos das igrejas cristãs que ela caracterizou como totalitários. No Brasil nós temos a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, que trava uma “batalha espiritual” contra os Direitos Humanos e o Multiculturalismo. A sua Teologia da Batalha Espiritual, que inclui discursos de ódio e práticas de intolerância religiosa, tem ganhado força nos últimos anos, com fortes poderes eclesiástico, econômico, midiático e político.
A bancada evangélica é um bloco suprapartidário que desempenha uma função policial, pois se articula apenas quando há convergência em temas institucionais e morais, especialmente em duas situações: garantir privilégios para algumas igrejas evangélicas (tais como concessões de rádio e televisão e isenção de impostos) e impedir que todos os cidadãos brasileiros tenham acesso a direitos liberais básicos que contrariam o moralismo dos deputados da bancada. Assim, eles se opõem a temas como Direitos Humanos, educação sexual, igualdade racial e de gênero, direito ao aborto, eutanásia, descriminalização do uso de drogas, casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e criminalização da homofobia. E vale deixar claro que nem todos os evangélicos e nem todas as igrejas concordam com as práticas e doutrinas fundamentalistas da Frente Parlamentar Evangélica.
Os agitadores da turba podem ser jornalistas, líderes de igrejas, partidos políticos ou organizações não-governamentais. Não importa. A semelhança entre todos os agitadores é tão grande e os próprios discursos são tão monótonos que, assim que se fica familiarizado com o número muito limitado de dispositivos em estoque, o que se encontra são intermináveis repetições de memes e notícias falsas. Como observou o David Borges no livro Brasil em crise, os incitadores da turba fomentam um “medo vermelho” contra qualquer discurso ou comportamento que se pudesse ser enquadrado como sendo “de esquerda”. E tudo o que é de esquerda passa a ser taxado de comunista.
A situação é tão bizarra e surreal que temos cristãos defendendo ódio e violência; ator pornô em defesa da família tradicional; deputado com vários mandatos no Congresso Nacional se apresentando como renovação e novidade; notícias verdadeiras acusadas de serem falsas e notícias falsas apresentadas como verdadeiras. O cenário é digno de uma ficção de realismo mágico ou de uma ficção distópica. “Vivemos uma distopia”, disse o David Borges no livro O que resta das jornadas de junho.
Desde junho de 2013, grupos como MBL, políticos profissionais e igrejas estimulam seus seguidores a se organizarem como um exército pronto para a guerra. Os Gladiadores do Altar da Igreja Universal do Reino de Deus não me deixam mentir. Daí a tendência para o uso de símbolos comuns, como o nariz de palhaço e a máscara de Guy Fawkes (aquela do filme V de Vingança), que caíram em desuso, a camisa da seleção brasileira de futebol, que continua sendo usada, ainda que com menos frequência, apesar de todas as denúncias de corrupção contra a CBF, e agora a camisa com o rosto do candidato fascista.
Esses grupos anseiam por uma autoridade absoluta, um líder que se afirme como possuidor de valores supremos e ufanistas. Vale lembrar que “Deutschland über alles, Über alles in der Welt” (“Alemanha acima de tudo, acima de tudo no mundo”), era o slogan da Alemanha nazista.
A narrativa desses agitadores fascistas tem o suposto objetivo de salvar o povo brasileiro dos diversos males supostamente causados pelo suposto comunismo – a corrupção, o marxismo cultural, o feminismo, a “ditadura gay” e o bolivarianismo. O remédio oferecido é a restauração dos valores morais e religiosos sustentadores da sociedade brasileira em tempos pregressos, além das instituições às quais estes mesmos valores estiveram vinculados. Eles querem um Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás.
Para ser bem breve: as investigações mostram que a corrupção está presente em quase todos os partidos e aquele é acusado de ser o mais corrupto, na verdade não é; o feminismo garantiu inúmeros direitos às mulheres, dentre os quais o direito ao voto (por isso, mulher que é contra o feminismo não deveria sair de casa para votar); não existe nada parecido com uma ditadura gay – os gays só reivindicam o direito de poder existir e viver normalmente, sem sofrer homofobia; com o fim da guerra fria, o comunismo deixou de ser uma ameaça potencial – nos últimos governos o Brasil se tornou um país cada vez mais capitalista. Não obstante, as pessoas preferem acreditar em memes e notícias falsas. Como observou Theodor Adorno em Teoria Freudiana e o Padrão da Propaganda Fascista, o material de propaganda fascista preocupa-se pouco com questões políticas concretas. As declarações dos agitadores são obviamente mais baseadas em cálculos psicológicos do que na intenção de conseguir seguidores por meio da expressão racional de objetivos racionais.
Os atuais agitadores da turba brasileiros assemelham-se àqueles falsos profetas estudados pelos pesquisadores da Escola de Frankfurt. Parece que, ontem como hoje, os agitadores da turba usam técnicas manipuladoras e se aproveitavam do descontentamento, dos medos e dos ressentimentos de parcelas da população, criando inimigos que corporificam a “força do mal” que deve ser erradicada pelo movimento. No caso dos nazistas, o alvo eram os judeus. No caso brasileiro atual, vocês sabem qual é o alvo. Em ambos os casos, os agitadores da turba são financiados por um público cativo, que inclui Igrejas, grandes e pequenas empresas, jornais, rádios e canais de televisão. Como resistir a isso?

Os desafios da resistência democrática
Mesmo com ou justamente devido à ascensão do que há de pior no país, destaca-se a certeza de que é preciso resistir. Resistir ao fascismo, resistir à crescente opressão das minorias que ousam elevar suas vozes, à repressão e à tentativa de censura mais, ou menos velada, a manifestações intelectuais e artísticas que primam pela liberdade de expressão.
Precisamos encontrar um modo de curar o delírio coletivo e fazer as pessoas entenderem que o governo anterior não ofereceu mamadeiras em formato de pênis para as crianças. Isso é uma mentira. E muitas pessoas têm acreditado em qualquer mentira. Desmascarar as mentiras seria fácil, se as pessoas recuperassem o bom senso. O difícil é curar o delírio coletivo e convencer as pessoas a raciocinarem. Como fazer isso? Não sei. Não sou psicólogo e não tenho fórmula mágica.

Eu só sei que precisamos aprender a usar as novas mídias como ferramentas de expressão, criação e ativismo democrático em favor do bem comum. Uma cidadania genuína exige que a comunidade tenha conhecimentos sobre a produção da mídia e a elaboração de produtos divulgáveis. Nesse sentido, precisamos deslindar um método crítico capaz de auxiliar na decodificação das notícias falsas veiculadas diariamente e na discriminação de seu complexo espectro de efeitos, identificando os vários códigos ideológicos presentes na cultura da mídia, criando e propondo alternativas contra-hegemônicas e antifascistas.
Também precisamos de uma política da memória. Por exemplo, na Alemanha e na Polônia, os campos de concentração nazistas foram transformados em museus. Na Alemanha, os inúmeros museus e memoriais dedicados à segunda guerra mundial e ao nazismo têm entrada gratuita. Em 2013 eu visitei, junto com uma amiga polonesa judia, os campos de Sachsenhausen e Auschwitz-Birkenau. Num determinado pavilhão, atravessei uma sala forrada com os sapatos, brinquedos e cabelos de homens, mulheres e crianças mortos nos campos. Até hoje eu ainda fico arrepiado e com lágrimas nos olhos. A visita ao campo é uma experiência pedagógica. O Brasil precisa de museus e memoriais da escravidão, da ditadura e da tortura. Quantos museus e memoriais da escravidão e da ditadura militar existem no Brasil? Que eu saiba, nenhum. Existem algumas iniciativas importantes, como o Museu do Negro no Rio de Janeiro, o Museu Afro Brasil e o Memorial da Resistência, em São Paulo. Também estão construindo um Museu da Escravidão e da Liberdade no Rio de Janeiro. Mas é muito pouco. E em contrapartida, em cidades brasileiras como Ouro Preto-MG, as senzalas viraram bares e restaurantes. Isso é um absurdo que revela descaso com o nosso passado de violência.
Em suma, se a política não tem sentido a priori, depende de cada cidadão conferir-lhe sentidos na medida em que afirmem seus valores. Que mudanças esperamos? Que sociedade queremos? O que caracteriza um país melhor? Que política desejamos? Sobre essa nossa decisão política e existencial se fundamenta a possibilidade de resistência ao niilismo e ao fascismo.
Referências
ADORNO, Theodor W. Freudian Theory and the Pattern of Fascist Propaganda. In: ARATO, Andrew; GEBHARDT, Eike (org.). The Essential Frankfurt school reader. New York: The Continuum Publishing Company, 1982, pp. 118-137.
BORGES, David G. “1984” e o Brasil de 2016. In: CEI, Vitor; DANNER, Leno; OLIVEIRA, Marcus Vinicius Xavier de; BORGES, David G. (orgs). O que resta das jornadas de junho. Porto Alegre: Editora Fi, 2017, pp. 163-178.
BORGES, David G. O “red scare” no Brasil. In: CEI, Vitor; BORGES, David G. (orgs.). Brasil em crise: o legado das jornadas de junho. Vila Velha, ES: Praia Editora, 2015, pp. 171-179.
CEI, Vitor. Cultura e política, 2013-2016: os incitadores da turba. In: CEI, Vitor; DANNER, Leno; OLIVEIRA, Marcus Vinicius Xavier de; BORGES, David G. (orgs). O que resta das jornadas de junho. Porto Alegre: Editora Fi, 2017, pp. 205-224.
CEI, Vitor. Contra-isso-que-está-aí: o niilismo nas jornadas de junho. In: CEI, Vitor; BORGES, David G. (orgs.). Brasil em crise: o legado das jornadas de junho. Vila Velha, ES: Praia Editora, 2015, pp. 137-164.
SOARES, Luis Eustáquio. Cinismo, niilismo, utopia. Observatório da Imprensa. São Paulo, n. 678, 24 de janeiro, 2012.

Texto de 2018. Fonte: Luciana Oliveira - NewsRondônia


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Os Vovôs do Rock'n Roll


Ver as lendas do Rock n' Roll subirem ao palco com mais de 70 anos de idade me faz refletir sobre a escolha certa da carreira. Será que um dia eles desejaram a aposentadoria? Parar de fazer shows, compor, ensaiar e gravar discos para curtir a família, viajar, descansar e tocar projetos pessoais? Pelo contrário, a impressão que eu tenho é que eles desejam morrer tocando, compondo, lançando discos, produzindo e criando.

Por outro lado, muitas pessoas trabalham a vida inteira sonhando com o esperado dia da aposentadoria. Trabalham  somente pelo dinheiro. Pelo sustento da família. Enquanto sonham com a vida que gostariam de ter. Tenho a impressão que isso acontece normalmente nos trabalhos onde mais se aperta parafuso do que se cria. E a atividade de apertar parafusos, não se aplica somente aos operadores braçais. Muitas pessoas com curso superior também passam a vida toda apertando parafusos metaforicamente falando. Ou seja, somente executam o que lhe pedem. Mesmo que diante de um computador. Não criam, não inspiram os outros e não são desafiados em seus trabalhos. Não constroem uma carreira pessoal, vivem à sombra das empresas onde trabalham.  

Me parece que essas pessoas tem uma visão deturpada do trabalho. Historicamente falando, isso pode estar relacionado com a escravidão, ou até mesmo com os traumas de filhos que viram seus pais saírem de casa infelizes para trabalhar somente pelo dinheiro. E também devido ao conceito de mais-valia, onde parte do valor da força de trabalho dispendida pelo trabalhador não é remunerada pelo patrão. Portanto ele é visto como uma coisa ruim. Que tira o seu tempo livre de ficar fazendo o que gosta e o substitui por atividades que não lhe agrada. Mas o que é liberdade senão o compromisso profundo com o que é melhor para você? 

E o que é trabalho então? Buscando rapidamente na internet encontrei que trabalho é "um conjunto de atividades realizadas, é o esforço feito por indivíduos, com o objetivo de atingir uma meta". E o que mais se encontra por aí são pessoas realizando trabalho para atingir as metas de outras pessoas. Por terem escolhido uma profissão que foi indicada pelos pais, pela televisão ou por parentes. Justamente por não saberem o que realmente querem. Mas essa meta não poderia ser a sua?

E nós simples mortais, não podemos trabalhar em algo onde desejemos morrer "tocando"? Exemplos de brasileiros que conseguiram isso são: Oscar Niemeyer, Ivo Pitanguy, Miguel Nicolelis, entre tantos outros engenheiros, empresários, padres e professores próximos a nós. Pessoas que  não são artistas mas mostram paixão pelo trabalho. Longe de desejarem que a aposentadoria chegue logo.  

Como encontrar então o trabalho que realmente te realize pela vida inteira? Eu não sei a resposta. Porém creio que ela passa por uma profunda reflexão do que é realmente importante para você. Por auto-conhecimento. Concluo esse artigo com o vídeo da música "Too Old to Rock'n Roll Too Young to Die" do Jethro Tull, uma crônica musical sobre alguém que se viu obrigado a se aposentar "trabalho" que tanto gostava!!




Obs: Texto retirado do blog cronicasecontossa@blogspot.com
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Escala F


vladimir safatle


Na década de 50, o filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1969) uniu-se a um grupo de psicólogos sociais norte-americanos para desenvolver um estudo pioneiro sobre o potencial autoritário inerente a sociedades de democracia liberal, como os Estados Unidos.

O resultado foi, entre outras coisas, um conjunto de testes que permitiam produzir uma escala (conhecida como Escala F, de "fascismo") que visava medir as tendências autoritárias da personalidade individual. 

Por mais que certas questões de método possam atualmente ser revistas, o projeto do qual Adorno fazia parte tinha o mérito de mostrar como vários traços do indivíduo liberal tinham profundo potencial autoritário.

O que explicava porque tais sociedades entravam periodicamente em ondas de histeria coletiva xenófoba, securitária e em perseguições contra minorias.

O que Adorno percebeu na sociedade norte-americana vale também para o Brasil. Na semana passada, esta Folha divulgou pesquisa mostrando como a grande maioria dos entrevistados apoia ações truculentas como a internação forçada para dependentes de drogas e intervenções policiais espetaculares como as que vimos na cracolândia.

Se houvesse pesquisa sobre o acolhimento de imigrantes haitianos e sobre a posição da população em relação à ditadura militar, certamente veríamos alguns resultados vergonhosos.

Tais pesquisas demonstram como a idealização da força é uma fantasia fundamental que parece guiar populações marcadas por uma cultura contínua do medo.

É preferível acreditar que há uma força capaz de "colocar tudo em ordem", mesmo que por meio da violência cega, do que admitir que a vida social não comporta paraísos de condomínio fechado. 
Sobre qual atitude tomar diante de tais dados, talvez valha a pena lembrar de uma posição do antigo presidente francês François Mitterrand (1916-1996).

Quando foi eleito pela primeira vez, em 1981, Mitterrand prometera abolir a pena de morte na França. Todas as pesquisas de opinião demonstravam, no entanto, que a grande maioria dos franceses era contrária à abolição.

Mitterrand ignorou as pesquisas. Como se dissesse que, muitas vezes, o governo deve levar a sociedade a ir lá aonde ela não quer ir, lá aonde ela ainda não é capaz de ir. Hoje, a pena de morte é rejeitada pela maioria absoluta da população francesa.

Tal exemplo demonstra como o bom governo é aquele capaz de reconhecer a existência de um potencial autoritário nas sociedades de democracia liberal e a necessidade de não se deixar aprisionar por tal potencial.
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