Há de ser tudo da lei

O bolsonarismo: Adolfo Oleare entrevista Vitor Cei

Vitor Cei é coorganizador dos livros Brasil em crise (2015), O que resta das jornadas de junho (2017) e Direitos humanos às bordas do abismo (2018). Idealizou, com David G. Borges, o Seminário de Pesquisa Social: Brasil em crise. Organizou e mediou o primeiro debate público do João Cezar de Castro Rocha sobre a guerra cultural bolsonarista




Entrevista concedida a Adolfo Oleare em 11 de junho de 2020




Oleare - Professor Vitor Cei, de acordo com seus estudos e com o debate dos livros que organizou sobre o cenário político brasileiro a partir de 2013, como o senhor diagnostica o surgimento do bolsonarismo?


Cei - Em 2018, 57,8 milhões de eleitores, influenciados por notícias falsas e motivados por afetos como ódio e ressentimento, elegeram um Presidente da República que personifica o machismo, o racismo, o autoritarismo, a tortura... Em junho de 2020, cerca de 32% da população considera o desgoverno da barbárie bom ou ótimo. As mesmas pesquisas mostram que cerca de 46% dos brasileiros confiam no Bolsonaro. Como esse fenômeno começou? Poderíamos fazer uma extensa retrospectiva e dizer que o bolsonarismo surgiu em 1988, quando Jair Messias Bolsonaro foi eleito vereador no Rio de Janeiro. No entanto, como você nota, considero 2013 o ano da virada política deste século.


Em junho de 2013, milhares de pessoas foram às ruas “contra-tudo-isso-que-está-aí”, bordão que virou uma popular hashtag entre os ativistas de sofá. Suspostamente contra a direita e a esquerda, aquela multidão não tinha uma concepção ética subjacente, tampouco referências valorativas. Em um raro momento da história do país, as manifestações de rua foram lotadas por essas pessoas que repudiavam os movimentos políticos e populares consolidados e protagonizados pela esquerda. Assim, as ruas, as redes de ações coletivas e o ativismo digital passaram a ser liderados por movimentos reacionários, imperialistas e neofascistas, contraditoriamente “liberais na economia e conservadores nos costumes”.


Em 2018, uma façanha da equipe de comunicação de Bolsonaro conseguiu convencer os coxinhas niilistas de 2013 que um deputado federal com 30 anos de carreira era o candidato contra isso que está aí, contra tudo e contra todos. Ele personificou um avatar ou meme antissistema que fez muito sucesso nas redes sociais. Outros eleitores passaram a adotar o princípio do mal menor. Para evitar o mal considerado maior, isto é, a reeleição do PT, aceitaram discursos antidemocráticos e atitudes neofascistas. Assim, um candidato favorável à tortura foi eleito.

Oleare - Como o senhor caracteriza a cultura bolsonarista (suas estratégias, suas táticas, seus agentes, seus valores, seus objetivos)?


Cei - As estratégias e táticas dos bolsonaristas assemelham-se àquelas dos agitadores fascistas norte-americanos descritas por Theodor Adorno. Eles usam técnicas manipuladoras e se aproveitam do descontentamento, dos medos e dos ressentimentos de parcelas da população, criando inimigos que corporificam a “força do mal” que deve ser erradicada pelo movimento. No caso dos antissemitas, o alvo eram os judeus. No caso bolsonarista, o alvo é o PT ou o comunismo. Em ambos os casos, os agitadores da turba são financiados por um público cativo, que inclui Igrejas, grandes corporações, pequenas empresas, jornais, rádios e canais de televisão.


Os agitadores incitam a multidão a acreditar que é organizada como um Exército ou uma Igreja. Daí a tendência para o uso de símbolos comuns, como gritos de guerra ou hashtags e uniformes como a camisa da seleção brasileira de futebol ou camisetas com o rosto do Bolsonaro.


As duas estratégias centrais, que conjugam as outras, são a estratégia nostálgica e a estratégia moralista. Seja agindo de modo complementar ou autonomamente, essas estratégias têm em comum a intenção de mudar o Brasil – livrando-o da corrupção – não somente a partir de princípios vinculadores arcaicos, como Deus, Pátria e Família, mas também a partir da tentativa de reinstaurarão de princípios mais recentes, mas igualmente falidos: militarismo e neoliberalismo. Ambas têm como objetivo salvar o povo brasileiro dos diversos males supostamente causados pelo comunismo – a corrupção, o marxismo cultural, o feminismo, a “ditadura gay”, o bolivarianismo e o comunismo – através da restauração dos valores morais e religiosos sustentadores da sociedade brasileira em tempos pregressos, além das instituições às quais estes mesmos valores estiveram vinculados.

Oleare - Que prognóstico o senhor faz acerca dos desdobramentos do bolsonarismo?


Cei - 
Enquanto o guru Olavo de Carvalho atua na internet, usando a retórica do ódio para fomentar a guerra cultural bolsonarista (cf. João Cezar de Castro Rocha, vídeo e texto), a Frente Parlamentar Evangélica atua no Congresso Nacional, desempenhando uma função policial, pois o seu principal objetivo é garantir o acompanhamento e a avaliação de todos os projetos de lei em tramitação na Câmara Federal a fim de evitar a aprovação daqueles contrários à moralidade cristã mais conservadora. Assim, se opõe a temas como Direitos Humanos, Multiculturalismo, educação sexual, igualdade racial e de gênero, direito ao aborto, eutanásia, descriminalização do uso de drogas, casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e criminalização da homofobia.

E os militares ocupam cada vez mais cargos no governo. As Forças Armadas servem ao bolsonarismo, como tropas fieis, ou servem-se do bolsonarismo, manipulando-o para alcançar objetivos próprios? Eis a questão.

Share:

Definition List

Unordered List

Get All The Latest Updates Delivered Straight Into Your Inbox For Free!

Support

AD BANNER