Há de ser tudo da lei

Feliz Natal e próximo ano novo

 Por Adolfo Oleare
A fé sempre é mais desejada, mais urgentemente necessitada, quando falta a vontade*: pois a vontade é, enquanto afeto de comando, o decisivo emblema da soberania e da força. Ou seja, quanto menos sabe alguém comandar, tanto mais anseia por alguém que comande severamente – por um deus, um príncipe, uma classe, um médico, um confessor, um dogma, uma consciência partidária. De onde se concluiria, talvez, que as duas religiões mundiais, o budismo e o cristianismo, podem dever sua origem, e mais ainda a súbita propagação, a um enorme adoecimento da vontade. E assim foi na verdade: ambas as religiões depararam com a exigência de um “tu deves”, alçada até o absurdo pelo adoecimento da vontade e indo até o desespero; ambas ensinaram o fanatismo em épocas de afrouxamento da vontade, com isso proporcionando a muitos um apoio, uma nova possibilidade de querer, um deleite no querer. Pois o fanatismo é a única “força de vontade” que também os fracos e inseguros podem ser levados a ter, como uma espécie de hipnotização de todo o sistema sensório-intelectual, em prol da abundante nutrição (hipertrofia) de um único ponto de vista e sentimento, que passa a predominar – o cristão o denomina sua . Quando uma pessoa chega à convicção fundamental de que tem de ser comandada, torna-se “crente”; inversamente, pode-se imaginar um prazer e força na autodeterminação, uma liberdade da vontade, em que um espírito se despede de toda crença, todo desejo de certeza, treinado que é em se equilibrar sobre tênues cordas e possibilidades e em dançar até mesmo à beira de abismos. Um tal espírito seria o espírito livre por excelência.

  
* O termo vontade não pode ser tomado aqui em registro psicológico, como algo que subjetivamente se tem ou se deixa de ter: “agora não, estou sem vontade”, ou “estou com muita vontade!”. Ao contrário, deve-se compreender vontade no sentido da noção Wille zur macht, como gostar e ser capaz de vir a ser o que se é., o que depende, em primeiro lugar, de uma capacidade de superar a subjetivação da realidade, para compreender que no “eu” um resultado do que se é, e não uma causa.       


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1 comentários:

  1. Eu discordo. Ter fé para mim é justamente ter muita vontade e acreditar que o impossível pode ser realizado pois você terá a ajuda de quem criou todo o Universo.

    A religião é falha pois é feita por homens, mas acreditar em algo místico e ter gratidão por estar vivo vai muito além de qualquer religião.

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