Há de ser tudo da lei

Raul Seixas: o lado B do lado A

Por Vitor Cei

Você deve conhecer o lado A do cantor e compositor Raul Seixas. O estereótipo criado em torno da figura do baiano gira em torno de chavões como maluco beleza, doidão, anarquista, drogado e afins. Reconhecido como um dos pioneiros da contracultura no Brasil, ele integrou a turma do desbunde, aquela galera que escutava rock, lia os poetas beat, fazia filmes em Super-8, não cortava os cabelos e preferia fumar maconha a pegar em armas. Contra a violência da ditadura militar, curtição e ações pacíficas.


É certo dizer que o estereótipo maior do “maluco belezaque rotula a vida e a obra de Raulzito tem um fundo de verdade. Todavia, os chavões servem para ofuscar certas facetas sensacionais de um artista que se autodeclarou “metamorfose ambulante”. Multifacetado, o artista agiu e pensou livremente, criando e auto-afirmando seus próprios valores, sem jamais se fixar em alguma certeza absoluta. Raul Seixas viveu como um indivíduo descentrado, inconstante, efêmero e transitório, com suas rupturas e descontinuidades. A arte de Raul Seixas, nascida de experiências que brotam da concreta vida cotidiana, é impregnada de ressonância e profundidade místicas que a impelem para além de seu tempo e lugar.

O enaltecimento da metamorfose ambulante, isto é, do indivíduo fragmentado, descentrado, disposto a afirmar sua singularidade contra o rigor de todas as opressões, nos leva o lado B de Raul Seixas. Em sua discografia, os irracionalismos, as antíteses e os antagonismos extremados ocupam o centro da cena. Ele mistura, em sua obra, diferentes ritmos e estilos musicais, poesia e música, filosofia e astrologia, ocultismo e religião, crítica social e desbunde, tudo regado ao uso de drogas lícitas e ilícitas.

A linguagem de Raul Seixas, imbuída de desbunde, do espírito rebelde, lúdico e libertino dos inconformados de seu tempo, que preferiram a expressão à construção, é formada por um vocabulário polissêmico, simbólico, repleto de figuras de linguagem, metáforas, alegorias, metonímias, regionalismos nordestinos, gírias urbanas e prosopopéias. Inseridas na indústria cultural, suas canções transmitem pensamentos sob forma figurada, disfarçada, muitas vezes ambígua, exigindo que o ouvinte interprete as idéias embutidas figurativamente em seus versos. Com essas características, suas músicas muitas vezes são recusadas por intelectuais e ativistas engajados, enquanto nem sempre são compreensíveis para as massas incultas. E poucos conhecem perfil intelectual de Raul Seixas, que foi um homem erudito, leitor voraz dos clássicos da filosofia e da literatura universal.



O escritor e filósofo Raul Seixas eliminou as fronteiras entre as culturas popular, erudita e de massa. Em sua obra encontramos referências implícitas ou explícitas a diversos autores brasileiros ou estrangeiros: Elvis Presley, Bo Diddley, Beatles, Bob Dylan, Jerry Lee Lewis, Luiz Gonzaga, Friedrich Netzsche, Pierre-Joseph Proudhon, Aleister Crowley, dentre muitos outros. Este último, atualmente pouco conhecido pelo grande público, foi um mago, poeta e escritor inglês que despertou muito interesse entre artistas nos anos 1960 e 1970, tornando-se guru da contracultura e do rock.

Exemplar é a capa do álbum Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band (BEATLES, 1967), criação do artista Peter Blake, que reúne imagens de 62 pessoas a quem os Beatles admiravam. Podemos ver o rosto de Aleister Crowley (segundo, da esquerda para direita) na linha de cima, entre o guru hindu Swami Sri Yukteswar Giri e a atriz americana Mae West. 




Outros astros do rock compatriotas do mago também prestaram suas homenagens: Jimmy Page, guitarrista do Led Zepellin, teria comprado a Boleskine House, refúgio de Crowley na Escócia, às margens do lago Ness, enquanto Ozzy Osbourne compôs a música “Mr. Crowley” em sua homenagem


No Brasil, o mais ilustre seguidor do ocultista inglês foi Raul Seixas. Embora o cantor nunca tenha comentado publicamente com clareza e detalhes suas experiências em sociedades iniciáticas, as canções explicitam que ele lançou sua Sociedade Alternativa a partir dos ensinamentos de Crowley. Uma das referências mais claras ao mago, na discografia de Raul, é a canção “A Lei”, do LP A Pedra do Gênesis (SEIXAS, 1988), tradução do texto Líber Oz, de Crowley, que anuncia a Lei de Thelema.

Thelema é uma palavra grega que significa vontade. Para os thelemitas (seguidores da Lei de Thelema, dentre os quais podemos incluir Raulzito), a sua máxima, longe de ser apenas um bordão, consiste na fórmula mágica do Novo Aeon, a nova era que os jovens tentavam materializar em comunidades alternativas e pela qual tanto ansiavam.

Cada Aeon (grande período espiritual) é caracterizado por uma fórmula mágica que consistiria no enunciado de como os fatos e as teorias cosmológicas são percebidos, podendo tomar a forma de axiomas ou conjuntos de símbolos que aumentariam a capacidade dos indivíduos de perceberem a si mesmos e ao universo.


Na década de 1970, a formação de grupos e ordens iniciáticas, esotéricas, era uma forma comum de reunir pessoas com idéias transgressoras. Nesse contexto, Raul Seixas se apropriou da idéia do Novo Aeon apresentada por Aleister Crowley para formular o seu próprio projeto de uma Sociedade Alternativa.

Raul Seixas, coerente com a fórmula do Novo Aeon, foi um poeta da liberdade irrestrita e da vontade como máxima soberana, além de defensor do uso de sexo e drogas para fins mágicos. Foi partidário de um individualismo extremista, apregoando a autonomia individual na busca da liberdade e na satisfação das inclinações naturais, em detrimento da hegemonia da coletividade massificada e despersonalizada. Sua arte condena todas as formas de poder e autoridade que restrinjam a soberania e a liberdade absolutas do indivíduo.


A Lei de Thelema emerge da crença na inutilidade das lutas no campo político-institucional, pois redundariam sempre em alguma forma de opressão ao indivíduo. A transformação social viável para resolver os problemas do homem dentro da sociedade poderia ser alcançada na medida em que cada um pensasse e agisse por si próprio, emergindo das massas, suprimindo todas as formas de autoridade estabelecidas, tendo em vista a realização dos desejos individuais.

Atento às tensões políticas e socioculturais de seu tempo, um esperançoso compositor oferecia ao público a promessa de superação do sofrimento imposto pela sociedade autoritária. Mas uma proposta política concreta estava ausente, visto que sua utopia individualista se sobrepõe a tudo, mesmo que ironicamente.
Quer a Sociedade Alternativa venha ou não a se realizar, a obra de Raul Seixas permanece importante por sua força imaginativa, utópica, por sua expressão e percepção das (im)possibilidades que permeiam a vida contemporânea. Esse é o seu legado para as gerações que se seguem, conforme o próprio compositor afirmou na canção-testamento “Geração da Luz”.

Para saber mais sobre o Lado B de Raul Seixas, conhecendo os problemas políticos, existenciais e socioculturais que marcaram seu tempo, num questionamento das conexões entre produção cultural e vida social, detectando, ampliando e registrando alguns problemas do nosso país, leia o meu livro Novo Aeon: Raul Seixas no torvelinho de seu tempo, publicado em 2010 pela Editora Multifoco, do Rio de Janeiro.

Resultado da minha pesquisa de mestrado em Estudos Literários, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFES, a obra aborda a concepção de Novo Aeon apresentada por Raul Seixas em suas músicas. Reunindo letras, entrevistas e outros textos avulsos do artista, o livro ajuda a compreender a música de Raulzito à luz da multiplicidade de problemas que formam a experiência cultural brasileira. Através de minha interpretação e o entrelaçamento de discussões com teóricos fundamentais para a compreensão do tema, apresento uma análise das questões que animaram as décadas de 1970 e 80: autoritarismo, censura, desbunde, contracultura, ocultismo, indústria cultural, melancolia e niilismo


Leia

Vitor Cei Santos
Novo Aeon: Raul Seixas no torvelinho de seu tempo
Editora Multifoco
224 páginas
Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Definition List

Unordered List

Get All The Latest Updates Delivered Straight Into Your Inbox For Free!

Support

AD BANNER