Há de ser tudo da lei

“Só sei que nada sei.”

“Só sei que nada sei.”
Também não tenho certeza quem escreveu isso: há divergências, uns dizem Sócrates; outros Platão. Mas isso não vem ao caso.
O Brasil é um país rico. Mais de 80% de sua população é pobre.
De acordo com o Instituto Teotônio Vilela (ITV), o Censo mostra que a pobreza está muito longe de ser superada no país. Mais de 60% das famílias brasileiras têm renda per capita inferior a um salário mínimo, 16,3 milhões de indivíduos vivem na miséria extrema e 14 milhões de pessoas não dispõem de banheiro em casa.
De acordo com o Jornal TERRA “O governo federal anunciou nesta terça-feira que a linha oficial de extrema pobreza no País é de R$ 70 per capita por mês. O anúncio foi feito pela ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, e o valor servirá de base para as ações do Plano Brasil sem Miséria que a presidente Dilma Rousseff deverá apresentar ainda este mês. No Brasil, 16,27 milhões de pessoas estão nesta condição, o que representa 8,5% da população.”
Afinal, o que leva um país tão rico como o Brasil a ter tantos miseráveis? É uma questão complexa que remonta desde a colonização do tipo exploratória pelos portugueses. Foi lá o jeitinho brasileiro foi concebido. Mas não justifica por que perdura até hoje esse modelo que é uma mistura de exploração com uma pitada de burlação adicionando a isso o alto grau de impunidade àqueles que cometem as infrações. Burlar a lei virou mania, virou exemplo a ser seguido. É possível ver nos pequenos atos do dia a dia que onde é possível tirar uma vantagem há sempre um burlando para se dar bem.
De acordo com Thaís Battibugli, “é natural a uma sociedade de cultura cívica “incivil”, deixar alguém guardando lugar na fila para ganhar tempo, chegar atrasado a compromissos, colar nas provas, estacionar em local proibido, parar o carro em cima de calçadas, sonegar impostos. Essa realidade produz um vasto sistema de privilégios e de extorsão da renda do próximo (Santos, 1994, p. 110-111; 114)”
Resumindo, somos todos culpados e responsáveis por essa sociedade que se mostra aí. A sociedade é um reflexo de seu povo. Lembro de uma reportagem que o Pânico na TV ou o CQC fez, não lembro quem exatamente, naquela época em que o Sarney estava envolvido em várias falcatruas e o povo se revoltava em uma manobra midiática (sabe-se lá qual era o interesse). Nessa reportagem os cidadãos era parados e indagados: “O sr. Sabe quem é o presidente do Senado? –Sim, sei, é o Sarney. –O que o Sr. Acha da política do Sarney?” Entre as mais variadas respostas, incluiam xingamentos, calúnias, difamações, entre outros. Em detemrinado momento o repórter pedia para que o cameramen desligasse o aparelho (mas ele não desligava, continuava a gravar sem que o entrevistado soubesse), então o repórter explicava: “Senhor, acontece que estamos gravando uma reportagém pró-Sarney, isto é, nós apoiamos o Sarney e (retirando algumas cédulas da carteira e oferecendo ao entrevistado) precisamos de depoimentos favoráveis para fazer nossa entrevista. O sr. Topa?” A cada 10 entrevistados, 8 aceitaram a “propina”; 1 ficou sem graça porque ele já tinha se maniefestado contra e não queria mudar de opinião tão rapidamente; e somente 1 negou veêmentemente a “proposta” e ainda passou o sabão no repórter.
E essa cultura brasileira vai muito além: cd’s, dvd’s piratas em qualquer banquinha; comprar produtos sem nota fiscal, roubados, furtados, contrabandeados. E de forma eletronica: uso de programas crackeados, softwares destravados, baixar filmes da internet sem nada pagar a ninguém: (basta acessar um dos tantos sites, ex.: www.baixaki.com.br; www.thepiratebay.org; http://isohunt.com/;
Para baixar série gratuitamente: http://www.baixartv.com/; www.baixarseriados.net/; www.seriesparabaixar.net/; entre outros. Se o problema é legenda, tá resolvido: http://legendas.tv/;
Vivemos numa sociedade onde os valores estão totalmente invertidos. Será que o novo jeito “certo” de se fazer as coisas é certo ou bom? Quando será que virá a colheita disso que semeamos no nosso dia a dia? Como já dizia minha vó “Quem viver verá!”.
Contudo nada impede de colocar em prática e viver sob aquilo que achamos certo. Por exemplo, há um grupo de pessoas que idealizam e irão colocar em prática uma nova forma de sociedade. É possível conseguir maiores informações no site: http://movimentozeitgeist.com.br/. Pode a princício parecer papo de doido, mas quando há esforços suficientes é possível a transformação para um novo modelo.
Fica então a frase para você, leitor: no que você acredita? O que você tem feito para transformar as coisas à sua volta?
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17 comentários:

  1. Eu acredito nas pequenas causas, cada um faz o bem aos que estão a sua volta e isso vai se propagando na sociedade. Eu sinto que o Brasil está melhorando, mas é difícil falar do Brasil de uma forma única. Existem vários paises dentro do Brasil. As estatísticas que você citou revela isso.

    Quanto aos problemas graves, referentes as pessoas que passam fome, eu acho que o governo faz bem com as bolsas família da vida. Nós podemos ajudar também com doações.

    No mais não há muito que fazer. Reis e miseráveis sempre existiram. Pelo menos hoje não somos divididos por casta, nem por sangue nobre. Hoje somos divididos por capacidade de gerar riqueza.

    Eu acredito que se todas as pessoas forem educadas e souberem jogar o jogo do capitalismo a desigualdade social diminuirá.

    Abraços

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  2. Humberto, o jogo do capitalismo exige que a desigualdade exista. Para um lucrar, outro tem que perder ou deixar de ganhar. O dinheiro que os investidores recebem de bolsas de valores e fundos de investimentos saem do bolso de alguém.

    Dinheiro não cresce em árvore, então não existe "geração de riqueza". Existe TRANSFERÊNCIA de riqueza. O dinheiro sai do pobre e vai para o rico. É assim que funciona o capitalismo.

    Se um dia todos os brasileiros forem educados e souberem jogar o jogo do capitalismo a desigualdade social realmente diminuirá no Brasil. Mas daí os brasileiros vão ter que arrumar algum povo para explorar. Vamos sair da condição de explorados para a condição de imperialistas. E a desigualdade vai continuar.

    Doação e bolsa-família amenizam o sofrimento dos miseráveis, mas não resolve o problema.

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  3. Torcei, eu acho que vc está exagerando brou! Eu admito que possa haver equívocos na minha visão sustentável do capitalismo, mas você também deveria admitir que está negativando demais o capitalismo.

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  4. Como diz uma fórmula marxista, o capitalismo é um sistema de meios totalmente racionalizados a serviço de fins irracionais.

    Enquanto sistema organizado, formado por um conjunto de regras e doutrinas que permaneceram ao longo do tempo, o capitalismo se caracteriza, dentre outras coisas: pela propriedade privada dos meios de produção; pelo livre jogo da oferta e da procura, em que a produção e a distribuição das riquezas são regidas pelo livre mercado, através do qual, em tese, os preços são determinados; pelo lucro, que consiste no ganho auferido durante uma operação comercial, através da exploração da força de trabalho.

    Podemos identificar as seguintes características no capitalismo: colonialismo (que, apesar do slogan “pós-colonialismo”, ainda persiste), totalitarismo, racismo, imperialismo, violentação da natureza, fortalecimento do poder da burguesia, busca incessante por lucro, crescimento das desigualdades sociais e alternância no uso de mão-de-obra assalariada e escrava (ainda hoje existe escravidão no Brasil e em outros países da periferia capitalista).

    Referência: Novo Aeon: Raul Seixas no torvelinho de seu tempo

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  5. Ao longo do tempo, o capitalismo foi sustentado e organizado, por um lado, por órgãos de cultura e formação, como escolas, universidades, igrejas, corporações e meios de comunicação de massa, por outro, através de aparelhos repressivos como polícia, forças armadas, tribunais, prisões e hospícios, se consolidando como um sistema mundial de reprodução de opressões.

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  6. Brou, o exagero é uma estratégia discursiva. E o capitalismo é insustentável. O planeta Terra não suportaria que 7 bilhões de pessoas fossem típicos consumidores de classe média. Existem dados sobre isso. Não tenho em mãos agora, mas posso procurar e postar no blog.

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  7. Agora eu entendi torcei, vc está preso ao que escreveu no seu livro! hehe!

    Eu concordo que o planeta não sustentaria o consumo de típicos consumidores da classe média para todas as pessoas do mundo. Porém, a solução não tem nada a ver com capitalismo, socialismo ou comunismo e sim com consumismo e burrice. Na minha opinião é possível sustentar o capitalismo com um consumismo inteligente para todas as pessoas do mundo.

    E para mim uma sociedade melhor para todos não depende se o sistema é capitalista ou socialista. Ele depende das intenções das pessoas. Por que não pode existir um jogo capitalista fair play? Se pessoas boas estiverem jogando é possível!

    O capitalismo para mim deu certo até hoje pq é um sistema que permite lidar com as diferenças entre as pessoas de uma forma organizada. Só para dar um exemplo simples: Se você for muito ambicioso e quiser ter luxo vc pode trabalhar até tarde da noite todos os dias e não ver seus filhos crescerem. Porém se você priorizar a família, seu bem estar e saúde, vc pode trabalhar o necessário para isso. No capitalismo é possível fazer escolhas!

    Eu não acredito na idéia de obrigar a todos a dividirem o bolo igualmente se isso não for da natureza humana. A coisa tem que ser natural. Se eu não me engano Karl Marx disse que a transição do capitalismo para o socialismo se dará de forma natural.

    Abraços!

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  8. O capiatlismo por princípio não é fair play. Humberto, no capitalismo vc pode trabalhar até tarde da noite todos os dias e não ver seus filhos crescerem e ganhar um salário mínimo que mal dá para sustentar sua família. Ou você pode pode trabalhar poucas horas por semana e ser milionário. O capitalismo não é um sistema de meritos como você diz.

    É possível fazer escolhas? A criança que passa fome fez escolhas? A criança analfabeta fez escolhas? Os pais analfabetos da criança analfabeta fizeram escolhas?

    Um juiz trabalha mais do que um professor? Um vereador trabalha mais do que um gari? Por que um juiz ganha mais do que um professor e um vereador ganha mais do que um gari? Não é porque eles trabalham mais...

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  9. Muito bem colocado Vitor Cei.

    Percebo que existem pessoas que nascem e sabem escolher o caminho mais curto para uma vida "sossegada" no capitalismo. Esse tipo de pessoa, opta por cursar cursinhos e faculdades que lhes deem um retorno financeiro mais rápido. Muita das vezes esse tipo de pessoa se torna alienada pois acaba por não conhecer de fato as magelas do mundo capitalista.

    Já há outros que por algum motivo desconhecem esta prática e são a maioria. Na minha opinião, estas pessoas não tem culpa por terem menos e não merecem também.

    O que quero dizer é que sempre vão existir aqueles que não vão saber jogar o jogo dos ratos e estes não devem ser punidos pq há coisas muito mais importantes na vida do que aprender sobre como investir seu dinheiro de forma a maximizar seu capital.

    Sobre o lance de que não se deve dividir igualmente seu capital quando a maioria não quer, é uma filosofia interessante pois é a vontade da maior parte. Agora vai chegar um dia que as pessoas vão olhar para uma porção de terra cercada por uma cerca e vão se questionar pq aquela porção possui apenas um dono. O dia que isso acontecer, será o fim do capitalismo.

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  10. 14 milhões de pessoas não possuem banheiro em casa. Isso equivale a quase 5 vezes a população do Uruguai. Esse tipo de pessoa não sabe investir em ações.

    "Cada um por si e Deus contra todos"

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Eu fui infeliz no exemplo de que trabalho está ligado a dinheiro. Realmente, se um gari trabalhar 15 horas e um advogado trabalhar 6 horas o advogado vai ganhar mais. Meu exemplo da certo para pessoas que tem o mesmo emprego.

    Vamos la, eu concordo com Estevão que nem todos são obrigados a saber jogar o jogo, mas essa é a realidade que nós temos. Para mim é mais eficiente jogar o jogo e ensinar os outros jogarem do que passar a vida sendo um capitalista por tabela e ficar renegando isso. É como querer falar alemão dentro do Brasil, não faz sentido!! A nossa língua é o português, a maioria das pessoas não se incomodam com isso e acabou.

    Outra coisa, eu acho que a pobreza não é inerente ao capitalismo. Em países desenvolvidos a pobreza é muito baixa e o governo banca as pessoas que estão em dificuldade. Existe governo no capitalismo para garantir o mínimo para as pessoas. Se isso não funciona é outra história! Para mim a pobreza dos países sub-desenvolvidos está mais ligada a corrupção, falta de organização, auto-estima baixa e falta de conhecimento do que ao sistema capitalista em si.

    Os ricos precisam dos pobres, pois são consumidores. A pobreza é ruim para o capitalismo. Eu garanto que seria muito melhor que para a IBM que todos os Africanos tivessem um poder aquisitivo alto, pois assim ela poderia vender milhões de computadores e aumentar a sua receita.

    Outra coisa, porções de terras cercadas não aconteceram só no capitalismo, na era medieval existiam um feudo na mão de poucos e a maioria era escrava. Hoje a coisa é muito mais democrática.

    Num mundo comunista uma criança também pode passar fome torcei se houver desvio de verba. Quanto a diferença de salários eu não posso defender o capitalismo. O valor do trabalho dentro do capitalismo realmente varia e pode ser injusto, mas querer encontrar uma ordem nisso é complicado. Torcei e Paulo Coelho são escritores e ganharam quantias diferentes com seus trabalhos. Isso é justo ? Tem explicação lógica ? Deveria ser diferente? Sinceramente eu não sei.

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  13. A discussão é boa... vou botar mais lenha na fogueira... Se todos os africanos tivessem um poder aquisitivo alto, onde a IBM encontraria mão de obra barata para fazer o trabalho braçal necessário para montagem e venda dos computadores? Ela venderia mais computadores, mas teria que pagar salários mais altos e a margem de lucro diminuiria.

    Torcei vendeu poucas centenas de livros, doou ou presenteou outras dezenas e não ganhou dinheiro com isso. Financeiramente talvez até tenha tido prejuízo. Prefiro nem fazer a contabilidade... PCoelho vendeu milhões de livros e ficou rico.

    Numa sociedade alternativa cada profissional trabalharia de acordo com sua possibilidade e ganharia de acordo com a sua necessidade, sem grandes diferenças salariais.

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  14. Torcei não ganhou dinheiro com isso ainda! hehe! Seu best seller vai chegar!

    A sua análise sobre a África faz sentido, mas eu prefiro acreditar que o capitalismo se ajeita. Assim como ele se ajeitou depois da revolução industrial, da automação e da internet. Mas a sua análise pode ser correta. Eu já ouço pessoas dizendo que com o crescimento do Brasil, nós podemos deixar em breve de ser um país barato (como a Índia e a China) para uma multinacional abrir suas fábricas e nos tornarmos caros como a Europa. Mas eu prefiro acreditar que mesmo sendo mãos de obra caras no futuro e perdendo as fabricas das multinacionais, nós iremos ajustar nosso capitalismo e continuar nosso crescimento.

    Após muito refletir, a minha posição é a seguinte:

    O fato de existir um jogo onde quem perde pode morrer de fome faz dele injusto na essência. E como disse Estevão, nem todos são obrigados a querer jogar esse jogo.

    Eu também sou contra o jogo, porém eu penso que saber jogar o jogo não é questão de ideologia ou filosofia, é questão de sobrevivência. Quando eu era criança meus pais jogavam o jogo por mim. Hoje quem joga sou eu.

    Abraços!

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  15. Já tendo visto o documentário "The corporation" a questão está no limite do "lucro o que custar". O jogo está aí, mas não é o único. Há produtos no mercado que são politicamente corretos, você pode consumi-lo. A questão é se somos iguais a eles e o que nos faltaria apenas uma chance para fazer igual. Se meu pai fosse dono da Ford e eu único herdeiro, o que eu faria? Será que daria continuidade a empresa? venderia por não querer participar disso? acabaria com a fábrica? Acontece que todos precisam de dinheiro para sobreviver, até os mendigos. A questão é se você pode se contentar com pouco ou se tiver muito, gastar com coisas que sejam policamente corretas, ou bancar uma instituição, lutar por uma causa justa... essas coisas.

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  16. Mais um comentário sobre o "jogo do capital". Eu entendo que o papel do governo nessa história toda é justamente garantir que os que não querem, não sabem ou não conseguiram se dar bem no jogo tenham uma vida digna.

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